O dia em que virei meu crachá para ninguém ver que eu era "Maria de empresa nenhuma"
- Mentoria da Maria
- 3 de ago.
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Barcelona, fevereiro de 2018. Mobile World Congress — mais de 100 mil visitantes, cerca de 2.300 expositores, delegações de mais de 200 países: o maior palco do setor de telecomunicações e mobilidade do planeta reunido num único recinto de feira. Corredores lotados, estandes gigantes, crachás pendurados no pescoço de todo mundo como um segundo nome. E o meu dizia só "Maria".
Sem sobrenome corporativo. Sem logo ao lado do nome. Nada.
Eu tinha sido desligada dias antes — a empresa em que eu trabalhava foi vendida, e decidiram, desde o primeiro dia, que aquela unidade de negócio que eu representava seria descontinuada assim que o contrato com um cliente grande fosse encerrado. Eu sabia. Já estava me recolocando havia semanas. Mas entre uma empresa e outra, sobrou esse intervalo: um mês em que eu era, oficialmente, ninguém.
O crachá que virei pro lado errado
Ninguém me barrou. Nenhum segurança olhou meu crachá e me impediu de entrar. A barreira era inteiramente minha, construída por dentro: em determinados estandes, eu simplesmente não entrava — decidia sozinha, antes de qualquer rejeição real, que eu não seria interessante o suficiente para que alguém ali quisesse me mostrar o próprio produto. Em outros, eu entrava, mas em algum momento da conversa, sem perceber direito o que estava fazendo, virava o crachá pro lado errado. Escondia a ausência de sobrenome antes que alguém precisasse perguntar.
Naquela época estava com vinte anos de carreira, resultado entregue, time liderado sob pressão — e, ainda assim, um pedaço de plástico sem logo foi suficiente para me convencer, por dentro, de que eu tinha menos valor naquele corredor. Não porque alguém tivesse me dito isso. Porque eu mesma decidi que era verdade.
Uma pesquisa da KPMG com executivas mostrou que 75% das mulheres em cargos de liderança já sentiram, em algum momento, que seu sucesso era fruto de circunstância — não de mérito próprio. Naquele mês em Barcelona, eu não estava apenas sem emprego. Estava, sem saber, dentro dessa estatística.
A pergunta que ficou
Voltei daquela viagem com uma pergunta que não me largou: por que uma profissional com muitos anos de resultado nas costas precisou de um logo alheio pra se sentir autorizada a entrar num estande? A resposta mais honesta não estava no ambiente — estava em mim. Eu nunca tinha construído nada que me sustentasse sozinha. Minha reputação, minha rede, minha autoridade — tudo estava hospedado no nome de empresas pelas quais eu já tinha passado ou ainda passaria. No dia em que uma delas saísse de cena, a sensação de valor saía junto.
O ambiente nem precisou me excluir. Bastou eu acreditar que seria excluída para que eu mesma me colocasse de fora.
O que mudou depois

Não foi da noite para o dia. Mas aquele mês "de empresa nenhuma" foi o início de uma marca pessoal que já não depende de crachá. Passei a construir minha própria autoridade — não como apêndice de um logotipo, mas como alguém reconhecida pelo que carrega dentro de si, não pelo que está escrito ao lado do nome.
Hoje, quando entro numa sala, meu nome já chega antes de mim. Não porque alguém me apresenta com o cargo certo. Porque, em algum momento, decidi parar de depender de um sobrenome que nunca foi realmente meu.
Se o seu crachá sumisse amanhã — o nome da empresa, o cargo, tudo — o que restaria do seu nome sozinho?




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