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O sabático que eu só tirei porque nunca me senti "pronta o suficiente"

  • Foto do escritor: Mentoria da Maria
    Mentoria da Maria
  • 18 de ago.
  • 3 min de leitura

Fechei o notebook mais uma vez sem terminar de ler a descrição da vaga.

Não era a primeira. Havia meses eu abria as oportunidades de transferência internacional da BASF, lia os requisitos linha por linha, e fechava a aba antes de chegar ao fim — sempre com a mesma sentença interna: "ainda não estou pronta para essa". E olha que eu não estava começando carreira: já era gerente de trade marketing na Suvinil, enquadrada no programa de potenciais da empresa, o grupo de pessoas em que a companhia investia justamente para crescer e assumir posições de liderança. Na teoria, eu já tinha sido escolhida. Na prática, eu continuava esperando me sentir escolhida o suficiente por dentro.

Foi ali, cansada de fechar a mesma aba, que tomei a decisão que vira essa história: pedir demissão, tirar um ano sabático e ir para Londres aperfeiçoar meu inglês — o motivo que, na minha cabeça, sempre me tirava da corrida antes mesmo de eu correr.


O caminho fácil também estava ali — e eu não segui ele

A BASF poderia ter me transferido. Era uma empresa que eu já conhecia, onde eu já tinha reputação construída, um caminho relativamente confortável até uma experiência internacional. Teria sido a rota óbvia. Mas toda vez que uma vaga aparecia, o inglês "não bom o suficiente" pesava mais que a reputação de anos. Existe uma pesquisa amplamente citada sobre carreira que mostra exatamente esse padrão: homens se candidatam a uma posição quando atendem cerca de 60% dos requisitos; mulheres, em geral, só se candidatam quando sentem que atendem a 100%. Eu era, com louvor, essa estatística.

Havia uma camada a mais na minha equação, que meus colegas de sala não carregavam: eu vinha de escola pública no interior de Minas Gerais, primeira da família a se formar numa faculdade. Intercâmbio na adolescência, pago pelos pais, não fazia parte do meu roteiro — fazia parte do dos meus colegas, majoritariamente formados em escolas particulares de São Paulo. Meus pais me deram uma educação que valorizavam com tudo o que tinham; a ideia de mandar a filha pro exterior aos dezesseis anos simplesmente não estava no radar de ninguém na família. Então, sem perceber, eu sempre corria com um passo de atraso que não era meu — era herdado.


A decisão de parar de esperar ficar pronta

Aos 35 anos, sem filhos, com uma reserva financeira que permitia ficar um ano sem trabalhar, terminei minha pós-graduação, vendi todos os meus móveis e comprei uma passagem só de ida para Londres. Três malas. Nenhuma garantia de emprego, de volta, de nada. Se eu esperasse me sentir 100% pronta, jamais teria saído do lugar — então decidi trocar a pergunta "estou pronta?" por uma bem mais simples: "eu quero?"


O que a espera por certeza estava me custando



Foi um dos melhores anos da minha vida — não porque o inglês ficou perfeito (ele não ficou, e aprendi que isso nunca foi o ponto), mas porque descobri, na prática, que comunicação não exige perfeição, exige coragem de ser entendida mesmo imperfeita. Viajei, convivi com gente do mundo inteiro, descansei de verdade pela primeira vez em anos. Voltei ao Brasil um ano depois e rapidamente já estava ganhando o dobro do que ganhava quando saí — não apesar da pausa, mas por causa dela.

A pergunta que fica não é sobre inglês, nem sobre morar fora. É sobre qualquer vaga, qualquer projeto, qualquer promoção que você já releu três vezes decidindo que ainda não está pronta o suficiente: quanto da sua espera é preparação real, e quanto é apenas o hábito de esperar permissão que ninguém prometeu te dar?

 

 

 
 
 

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